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02/02/2015

Piercing e Tatuagens na adolescência

O tema exige de pais, médicos e educadores a percepção e postura adequadas, deixando de lado preferências e preconceitos. O diálogo com os adolescentes constitui o aspecto fundamental, podendo funcionar como fator de prevenção e proteção de riscos para estes indivíduos.

O uso de piercings e tatuagens está se tornando cada vez mais popular entre os jovens de diversos países e em todas as camadas socioeconômicas. Esse fato decorre tanto pela procura de novidades, característica inerente dessa faixa etária, quanto pelo estímulo indiretamente provocado pela mídia. Embora, a primeira vista pareça ser um tema ligado à contemporaneidade, essa prática é comum há mais de 5000 anos em vários povos por questões religiosas e culturais.

PIERCING E TATUAGEM

A expressão piercing tem sido usada para designar um tipo de adorno (body piercing), jóia ou peça decorativa, inserida por perfuração, em certas partes do corpo como, por exemplo, orelha, região superciliar, nariz, umbigo, boca (lábio, bochecha e língua), mamilo e região genital. Depois de colocado, cada dispositivo, na dependência do local de perfuração tem um tempo variável para cicatrização. Esse tempo de cicatrização representa um período de vulnerabilidade e, portanto, de intensa vigilância para complicações infecciosas.

Tatuagem é a inserção na derme de pigmentos insolúveis, que podem permanecer indefinidamente na pele. Os pigmentos mais freqüentemente utilizados são a tinta da China e diversos corantes químicos.

 COMPLICAÇÕES

Piercings: Infecção local ou sangramentos são descritos em 10% a 30% dos casos. Na pele, a maior parte das complicações ocorre em região umbilical, seguidas da orelha e nariz. Infecção é a causa mais comum de complicação (mais de 75% das procuras por Serviços de Saúde), cujas manifestações típicas são dor e sinais flogísticos locais. A disseminação infecciosa subjacente, particularmente a cartilagem da orelha e nariz são temerárias, pelas implicações estéticas futuras. O risco de complicações infecciosas é bastante reduzido com precauções de assepsia na colocação e na manutenção do piercing. Descreve-se também, o risco de transmissão de hepatites B e C e tétano no procedimento de inserção por material inapropriado. O HIV pode ser transmitido por utilização de material contaminado não esterilizado. Outras complicações descritas nos piercings são as cicatrizes quelóides e as dermatites de contato pelo material do dispositivo. As complicações do adorno oral são: dor, edema, obstrução das vias aéreas, fratura dos dentes, trauma gengival, interferência na mastigação, dificuldade de fonação, hipersalivação, halitose, periodontite e aspiração.

Tatuagens também estão relacionadas com complicações. Os riscos de transmissão de infecções também existem no procedimento de realização com equipamento não esterilizado. A complicação mais descrita é a dermatite de contato pelos pigmentos injetados na derme. É interessante salientar que durante a adolescência, devido ao crescimento, a tatuagem sofre deformidade e distorção. Além disto, os pigmentos tatuados, com o decorrer dos anos, tendem a ficar mais turvos e vão se localizando em regiões mais profundas da derme. Vale ressaltar aos profissionais de Saúde que, mesmo as tatuagens ditas “temporárias”, realizadas com henna, podem determinar complicações dermatológicas. 

CONSIDERAÇÕES LEGAIS

Comumente, os piercers (pessoas que inserem os dispositivos) não têm formação específica e aprendem a técnica simplesmente por observação.

Em alguns estados, como em São Paulo, existem leis que proíbem a aplicação de piercings e tatuagens em menores de idade, mesmo sob consentimento dos pais. Isso se tornou um obstáculo maior para os adolescentes que desejam colocar esses adornos. Tornou-se também um problema, já que vários resolvem fazer a perfuração de modo caseiro e acabam por machucar o corpo ficando mais predispostos às complicações. Ressalta-se também que os adolescentes costumam, com freqüência, examinar as regras para quebrá-las. Apesar das leis e proibições terem o seu papel, elas não garantem a inexistência dos riscos e complicações, sendo uma responsabilidade do profissional de saúde o conhecimento sobre tais eventos, para que se possa orientar de forma adequada e tratar, quando necessário, pacientes que se encontrem nestas situações.

 CONSIDERAÇÕES PRÁTICAS

Sugere-se que além, das questões legais envolvidas, apresentadas anteriormente, uma abordagem por parte dos médicos, aberta e dissociada de uma visão discriminatória, privilegiando a reflexão e a crítica em relação aos aspectos particulares do tema.

A adolescência é marcada pela procura de identidade e independência. A necessidade de experimentação e o processo de formação de sua identidade, com oscilações e mudanças podem constituir-se em elementos a serem considerados na tomada de decisão. São comuns na prática clínica as flutuações nos referenciais trazidos por adolescentes durante o seu acompanhamento. A experiência demonstra que, com a mesma intensidade com que um adolescente deseja, por exemplo, tatuar-se ou aplicar uma tintura em seu cabelo, ele procura, no futuro, retirá-la. É interessante que o adolescente perceba-se num momento de experimentações, identificando suas oscilações de gostos e envolvimentos, postergando eventualmente atitudes intempestivas e, por vezes, irreversíveis. Nomes de namoradas, escudos de time de futebol, sinais cabalísticos ou uma simples menção ao surf pode virar algo indesejado. O crescimento e o desenvolvimento conduzem o adolescente a novas posições sociais. A existência de algumas “marcas” pode tornar-se inadequada nesse “novo” momento. Os resultados indesejáveis, por vezes são indeléveis. As técnicas, por exemplo, de remoção de tatuagens, embora desenvolvidas, ainda são pouco eficazes, dolorosas e de elevado custo. Todos esses aspectos devem ser colocados ao cliente e à família, para uma decisão orientada e consciente.

Deve-se ainda lembrar que o uso de tatuagens e piercings podem envolver o adolescente em determinadas situações de risco, sem que ele, muitas vezes, tenha capacidade de percebê-las ou de se preocupar com conseqüências futuras. Deve ser clara e explícita a orientação ao cliente adolescente sobre todas as potenciais complicações descritas para o procedimento desejado e suas conseqüências a curto (dor e uso de antibióticos, por exemplo) e a longo prazo (cicatrizes, e deformações). Estratégias de redução dos riscos, como as orientações de perfurações em partes menos sujeitas a complicações, podem ser úteis. A sensibilização do adolescente aos cuidados específicos de manutenção deve ser priorizada. 

 O tema, na Adolescência, exige de pais, médicos e educadores percepção e postura adequadas, deixando de lado preferências e preconceitos por ventura existentes. Dessa forma, independente de existência de leis, ainda o fortalecimento do diálogo com os adolescentes constitui o aspecto fundamental, podendo funcionar como fator de prevenção e proteção de riscos para estes indivíduos.

Dra. Debora Gejer é hebiatra e coordenadora do Ambulatório de Especialidades Pediátricas do Hospital Municipal Infantil Menino Jesus

Dr. Antonio Carlos Madeira de Arruda é pediatra e diretor executivo do Hospital Menino Jesus

 

 

 

 

 

 

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